Chevrolet Diplomata Seis Cilindros

Como se comporta o mais vendido executivo de luxo nacional, quando equipado com o potente motor 250-S, e transmissão automática.

Matéria originalmente publicada na edição de maio de 1981 (n° 11) da revista Motor 3
Texto: Paulo Celso Facin

O Chevrolet Diplomata foi o veículo nacional mais vendido em sua faixa de mercado durante o ano passado. Automóvel de porte médio-grande, versão mais completa e mais luxuosa da GMB, compete diretamente com os Galaxie (LTD e Landau) e com os Alfa Romeo (ti e SL). E levou vantagem, em termos mercadológicos, embora não oferecendo o espaço e nível de conforto de um Galaxie, nem a sofisticação e estabilidade de um Alfa.

Há razões bastante claras para que isso ocorra. Em primeiro lugar, o Diplomata é, por enquanto, o único executivo de alto luxo a oferecer versões de duas e quatro portas, bem como quatro opções de motores — as mais econômicas de quatro cilindros, a álcool ou gasolina, e os possantes 250 e 250-S de seis cilindros, a gasolina. Ou seja: o comprador pode escolher entre o luxo com economia ou luxo com desempenho. Paralelamente, o veículo da General Motors é, nessa faixa, o que apresenta menor preço básico ao ser adquirido zero quilômetro. E, por fim, é também o que menos aparece. Explicamos: os índices de violência e criminalidade vêm aumentando em assustadora progressão nos últimos tempos, e tanto um Alfa Romeo ti quanto um Landau são veículos muito aparentes; compradores que desejam luxo, conforto e desempenho, porém com menos ostentação, encontram nos Diplomatas uma resposta adequada.

Esse conjunto de fatores explica a preferência do mercado pelos Diplomata, que venderam 3.898 unidades em 1980, contra os 3.022 LTD e Landau, os 2.039 Alfa Romeo ti e SL, ou os apenas 246 Dodge de todos os tipos. Desse total da linha Diplomata, 72% foram vendidos na versão de duas portas, deixando patente a preferência quase esmagadora do motorista brasileiro por esse tipo sobre os sedãs de quatro portas. Quanto ao motor, as preferências do público obviamente se voltaram para os de quatro cilindros, devido ao preço do combustível: 2.856 unidades vendidas estavam assim equipadas, das quais 509 movidas a álcool, e 1.042 saíram de fábrica com o trem de força de seis cilindros.

Para esta nossa primeira análise de um Chevrolet Diplomata retiramos um sedã de seis cilindros, motor 250-S, equipado de série com transmissão automática, ar condicionado, vidros verdes, desembaçador, direção hidráulica etc., etc. Pintado de preto, tinha uma aparência tão oficial que abria caminho em avenidas e estradas sem mesmo precisar pedir passagem. Nesta verificação, portanto, a preocupação maior volta-se para o item desempenho, visto que um comprador dessa faixa de mercado não está mesmo muito preocupado com os preços do combustível. Proximamente mostraremos os resultados comparativos entre dois Diplomatas quatro cilindros, um a álcool e outro a gasolina.

DE FAMÍLIA, SIM; MAS INVOCADO

Um Diplomata de quatro portas é praticamente o protótipo do sedã familiar e bem-comportado. O tipo do carro do qual se espera um rodar tranquilo, situação, aliás, em que ele pode ser visto na grande maioria de sua vida útil. Mas toda essa aparência de soneca, de letargia, desaparece quando o motorista solicita para valer o atrevido motor 250-S. O carro responde com decisão e apetite, ganhando marcha ou retomando velocidade com rapidez e deixando muito carro esportivo para trás.

Sua velocidade máxima real é de 173,4 km/horários, com o quilômetro lançado coberto em 20,76 segundos. Marcas exatamente iguais às alcançadas pelo Alfa Romeo ti 4 e superiores às do Landau a álcool, que registrou 171,7 km/horários, com mil metros lançados em 20,96 segundos. Um Passat TS, apenas para exemplificar, fica nos 162,4 por hora.

O Diplomata escolhido estava equipado com a excelente transmissão automática de três velocidades da General Motors, um opcional desejabilíssimo do ponto de vista do conforto, da segurança e mesmo do desempenho, mas que o brasileiro, em geral, tende a desprezar por ainda desconhecer suas múltiplas vantagens. É voz corrente que “dirigir sem cambiar fica sem graça” e que “carro automático não anda bem”. Duas perfeitas e completas inverdades. Dirigir sem cambiar é muito mais confortável e seguro, especialmente no trânsito pára-anda das cidades; por outro lado, é possível fazer trocas de marchas manuais rapidíssimas em um carro automático, usando a alavanca seletora através de suas posições — 1 só para primeira, 2 para primeira e segunda, D para escolha automática das marchas. Melhor ainda: as trocas podem ser feitas no limite de giros úteis do motor, em frações de segundo, sem perda de rotação, o que se traduz em melhor desempenho. E quanto à segunda assertiva, o que ocorre é que muitos motoristas, inclusive proprietários de carros automáticos, ainda não sabem, por exemplo, como arrancar com seus veículos de forma mais esportiva.

Quase todos ficam presos à imagem de um conversor de torque girando e patinando, sem que o carro ande na velocidade correspondente. Para esses, um pequeno lembrete: peguem seus carros, especialmente se tiverem motor mais possante, e procurem uma pista deserta; coloquem a alavanca seletora na posição D, pisem firme no freio com o pé esquerdo, com o direito acelerem até uns 4.500 ou 5.000 giros. Verão que o carro se entorta e ergue a traseira, parecendo assanhado para partir. Aí é só soltar de vez o pé esquerdo, liberando o freio. O carro irá arrancar fortemente, cantando pneus; a primeira será levada até sua máxima rotação; a segunda entra lá em cima e a dose se repete na terceira. Em dois tempos o velocímetro acusa os 100 por hora e chega o momento de olhar pelo retrovisor e dar um pequeno aceno de adeus para o carro mecânico similar que ficou para trás.

O Diplomata automático com motor 250-S marcou 11,7 segundos para ir de zero a 100 km/horários, nesse tipo de solicitação. Os primeiros 400 metros foram vencidos em 18,6 segundos e o quilômetro em 34,9. Para efeito de comparação, nas mesmas medições o Landau a álcool automático registrou 11,1, 18,1 e 34,2 segundos, respectivamente. O Alfa Romeo ti 4 com câmbio mecânico de cinco marchas precisou de 12,0, 19,0 e 35,2 segundos. O Passat TS? Ah, deixa pra lá! Ele é o melhor em sua categoria, mas falta-lhe algum fôlego para brigar com os “grandões”.

Nas retomadas de velocidade as marcas do Diplomata também foram muito boas. Usando o chamado kick down (pisada rápida e seca com o pé no acelerador) a caixa automática aciona imediatamente a marcha inferior e a mantém até o limite de troca ou até que se alivie o pé. Com isso as acelerações de recuperação em ultrapassagens são bem eficientes e sempre corretamente efetuadas, independente da ação do motorista (embora este possa usar manualmente o seletor). De 40 a 80 por hora o Diplomata acelerou em 5,0 segundos e de 80 a 120 em 8,8. No primeiro caso o seletor chamou automaticamente a primeira e a segunda; na outra verificação as marchas selecionadas foram a segunda e a terceira.

Todas essas respostas convincentes no desempenho do carro analisado se devem, principalmente, ao uso do motor 250-S da GMB, unidade de seis cilindros verticais em linha com carburação de corpo duplo, que desenvolve 171 CV SAE de potência a 4.800 rpm e oferece torque bruto de 32,5 kgm a 2.600 rpm, tudo isso dentro de um deslocamento de 4.093 cc. Suas principais diferenças — e vantagens — quando comparado com o 250 normal estão no volante do motor mais leve (ele usa o volante do motor de quatro cilindros), um comando de válvulas com diferença no ângulo e no tempo de abertura e tuchos com comando mecânico, que fazem aquele simpático barulhinho de máquina de costura e evitam a “flutuação” prematura das válvulas.

“PNEUAÇO”, UM OPCIONAL DESEJÁVEL

O Diplomata de seis cilindros sai de fábrica quase totalmente equipado, podendo receber apenas quatro opcionais: pintura metálica, teto de vinil, motor 250-S e pneus radiais com cintas de aço, 195/70 SR 14. Os dois primeiros são itens de ordem apenas estética; do terceiro já falamos; e o quarto opcional merece ser encarado com carinho, pelos apreciáveis dotes de segurança e mesmo economia que proporciona. As diversas alterações estruturais e mecânicas que, ao longo dos anos, foram sendo incorporadas à linha

Opala trouxeram benefícios sensíveis para a estabilidade dos diversos modelos. Antes indecisos em curvas e oscilantes em arrancadas fortes, hoje eles estão com outra definição, transmitindo bem mais confiança ao piloto. O modelo mais estável da linha é a perua Caravan, seguindo-se o sedã quatro portas e por fim o duas portas. E o Diplomata que avaliamos, embora sem ser um Alfa Romeo nas curvas, fazia tomadas com gosto, auxiliado por sua leve e correta direção hidráulica. Os novos pneus têm parte ativa nesse comportamento, pois sempre foi possível sentir seu elevado índice de aderência ao piso. Em contrapartida, deve ser dito que os pneuaços se mostraram um tanto escandalosos nos sons emitidos, mesmo em curvas mais leves. No miolo de Interlagos, por exemplo, havia curvas em que até o estepe parecia cantar no porta-malas.

Nas solicitações esportivas em autódromos ou em estradas sinuosas também se nota a atuação adequada da caixa de mudanças automática, só que nesse caso com as rápidas trocas de marchas feitas manualmente através do seletor, sem nenhum instante de roda livre porque não há um pedal de embreagem para ser pressionado.

A inexistência desse pedal, aliás, facilita também o ato de frear com o pé esquerdo (após algum treino, é claro, pois no começo é comum pisar com a mesma força e disposição usadas na embreagem, causando paradas muito perigosas caso haja outro carro perto da traseira). O uso dos dois pedais — acelerador e freio — permite tomadas de curvas mais ousadas e seguras. Nas frenagens o Diplomata exibiu bons resultados, traçando trajetórias sem fugas laterais e se detendo em espaços seguros. A 100 por hora, imobilizou-se em exatamente 43 metros, usando apenas o pedal de freio, acionando o sistema de discos na frente e tambores atrás, bem-assistidos por um bom servo. Essa marca pode ser reduzida por um piloto experimentado, que aproveite a facilidade de mudanças da caixa automática para jogar uma primeira marcha mesmo que o carro esteja perto dos 90 por hora, usando o freio-motor.

NÚMEROS DE CONSUMO E CONFORTO

A média de 6,0 km/litro em uso urbano pode ser considerada bem boa para a categoria do Diplomata e o desempenho de seu motor de seis cilindros e 171 CV de potência. Esse número indica o gasto global em cidade, rodando ora com o ar condicionado ligado, ora desligado. Em trechos de maior movimento anotamos 5,6 km/litro, enquanto em bairros livres e avenidas expressas foram 6,5 km/litro. Em rodovias o Diplomata percorreu em média 7,7 quilômetros por litro de nossa mal-cheirosa gasolina amarela. Isso significa uma autonomia de praticamente 500 quilômetros, graças ao tanque de 65 litros. A melhor marca obtida surgiu em estradas de bom traçado, mantendo velocidades constantes entre 85 e 90 km/horários: 9,7 km/litro. Acompanhando o fluxo normal de uma via movimentada foram 7,1 km/litro. E a 130 por hora constantes registramos 6,5 km/l.

Quanto ao conforto, motorista e acompanhante no banco da frente dispõem cada um de 831 litros, dentro dos quais podem se acomodar, sem problemas, pessoas de qualquer tipo físico. Atrás o volume cai para 399 litros por pessoa com dois ocupantes ou 266 litros com três. Nesse compartimento o espaço é bom para ombros e cabeças, aceitável para quadris e sofrível para pernas — principalmente se os bancos da frente estiverem bem recuados. O acesso é correto tanto na frente quanto atrás, com as quatro portas oferecendo bons ângulos de abertura.

Seu nível de ruído é correto, mas sem dúvida fica atrás do padrão oferecido pelo Landau ou Alfa Romeo ti — embora a bem menos distância deste do que daquele. Nossas aferições indicaram 53 decibéis em marcha lenta com vidros abertos e 50 fechado. Nas mesmas condições, o limite da primeira marcou 87 e 86 dBA, enquanto a 80 por hora constantes foram 74 e 71 dBA. Viajando a 100 por hora, 82 e 75 decibéis. Quando o velocímetro acusava 130 por hora o decibelímetro indicava 87 dBA com vidros abertos e 81 com tudo fechado.

CONCLUSÕES

Executivo médio-grande com acabamento caprichado, o Diplomata equipado com motor 250-S pesou 1.240 quilos, sendo 680 sobre o eixo dianteiro e 560 no traseiro. Uma adequada distribuição de massas, sobre um veículo de design já um tanto ultrapassado — apesar de recentemente embonecado para se manter no mercado por mais alguns anos. A frente de faróis retangulares e lanternas envolventes modernizou o modelo, que se mostra mais elegante na versão de quatro portas do que na de duas.

Com seu preço de Cr$ 1.064.856 em março (Cr$ 1.114.694 quando dotado dos quatro opcionais que pode receber), vem ocupando posição bastante privilegiada, conforme se percebe pela vantagem que exibe nos números totais de vendas do ano passado. Mas essa tranquilidade sem dúvida será abalada pela próxima entrada do Del Rey da Ford no mercado. Vamos aguardar, embora sabendo que os que preferem desempenho continuarão com a linha Chevrolet e seus velhos, valentes, confiáveis motores de seis cilindros.

Editoria da Bigórnia